Para professora da USP, o Brasil só retomará o crescimento de modo sustentado com um governante como Fernando Collor. "Acredito que um homem público com o estilo arrojado, criativo e destemido como Collor seria capaz de fazer maravilhas pelo país"
A onda de otimismo em relação aos indicadores do governo Lula não contamina a economista Maria Helena Zockun, da Universidade de São Paulo. Pesquisadora da Fipe desde 1974, quando foi criada a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, um dos órgãos que mede a inflação do país, a professora acredita ser necessário um governante com o perfil do ex-presidente Collor para que o Brasil retome de fato o crescimento. “O Brasil caminha de forma muito lenta rumo ao tão falado crescimento sustentado. Precisaria haver a mesma ousadia do Fernando Collor, quando ele abriu a economia. Foi um processo brusco, mas necessário", argumenta.
Economista formada pela USP, com mestrado pela mesma universidade em economia agrícola e internacional, Maria Helena é pesquisadora da Fipe desde a criação do órgão, em 1974, e professora do MBA da Fundação. A defesa do governo Collor baseia-se na tese de que, depois das medidas do ex-presidente (incluindo a diminuição das alíquotas de importação), a indústria brasileira foi obrigada a se modernizar e ganhar competitividade. "Eu não tenho dúvidas de que se ele não tivesse feito o que fez, estaríamos numa situação muito pior do que a que estamos hoje. Nossa economia seria ainda mais frágil e nosso parque industrial, mais incipiente. Muitos faliram, sim. Mas os que se estabeleceram, criaram condições de mercado".
A professora acredita que as denúncias de corrupção envolvendo PC Farias e integrantes do governo Collor não foram a principal razão do impeachment do ex-presidente. "Ele só caiu porque feriu os interesses de grupos majoritários, que se vingaram.” Ela acredita que apenas um homem público com o estilo arrojado, criativo e destemido como Collor seria capaz de transformar o país. Leia a seguir os principais trechos da entrevista à AOL:
AOL – Por que a senhora defende uma pessoa que expôs a indústria nacional à concorrência internacional sem que ela estivesse preparada para isso?
Maria Helena Zockun – A verdade é que aquele moço fez um bem para o país. Estávamos no caminho do empobrecimento constante. Era a melhor saída, o desemprego seria ainda mais elevado hoje e o nível de renda, mais baixo.
Ele tinha consciência do que estava fazendo?
Ele tinha um diagnóstico acertado sobre a economia do país, que era semelhante ao de instituições idôneas como a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Ele tanto estava no caminho certo que o vice, Itamar Franco, ao assumir, aprofundou a abertura econômica, diminuindo ainda mais as tarifas de importação.
Mas as medidas que Collor tomou não trouxeram falências e desemprego?
Depois das medidas econômicas, entre as quais a da diminuição das alíquotas de importação, a indústria brasileira foi obrigada a se modernizar e, com isso, ganhou competitividade. Eu não tenho dúvidas de que se ele não tivesse feito o que fez, estaríamos numa situação muito pior do que a que estamos hoje. Nossa economia seria ainda mais frágil e nosso parque industrial, mais incipiente. Muitos faliram, sim. Mas os que se estabeleceram, criaram condições de mercado
E por que ele não promoveu essa abertura de maneira mais organizada e gradual?
Mudanças graduais não levam a lugar algum e toda mudança traz algum sofrimento. Mas depois, tudo se organiza de forma mais adequada. O que é preciso é vontade política e coragem.
Mas o ex-presidente estava envolvido em esquemas de corrupção, junto com PC Farias...
A corrupção sempre está presente e ela não foi a principal razão do afastamento de Collor. Ele só caiu porque feriu os interesses de grupos majoritários, que se vingaram. Acredito que um homem público com o estilo arrojado, criativo e destemido como Collor seria capaz de fazer maravilhas pelo país.
A senhora votou nele na ocasião?
Sim, votei após analisar atentamente as propostas de governo de todos os candidatos. Não sei se votaria de novo, isso não vem ao caso. Teria de analisar as propostas novamente.
Como a senhora analisa o governo Lula, sob a ótica tributária?
A postura do governo Lula só piorou a situação tributária do país, que já vem meio capenga nos últimos 20 anos. O aumento da sonegação e da informalidade. Não há como pagar tanto imposto. A inadimplência e a informalidade não são fruto do mau-caratismo. O governo só atinge 60% do que 'precisa' arrecadar porque as pessoas não conseguem pagar.
Na sua opinião, como resolver esse problema?
Se o governo congelar gastos, a conta fecha. Eu nem falo em cortar, porque prefiro trabalhar com uma sugestão mais viável politicamente. Existem propostas muito mais ousadas, mas que o governo nunca adotou, nem vai adotar, porque haverá queda temporária da arrecadação
Fernando Collor teria agido assim?
Tenho certeza. Ou uma outra pessoa com o mesmo perfil dele.
Muito se fala em diminuir gastos. A senhora fala em congelá-los. Como assim?
Lula deveria enfrentar uma das principais causas do aumento de gastos do governo: o funcionalismo e a previdência. Por conta das regras que definem a folha de pagamento, os gastos do governo crescem anualmente mesmo que não haja reajuste de salários ou contratações. Isso faz com que o governo precise cada vez mais de dinheiro. Congelando esse mecanismo, temos um alívio.
Mas o problema não está no pagamento dos servidores públicos?
Está. Para pagar a aposentadoria deles, o governo faz uma transferência de valores perversa: tira do pobre e dá para o rico. Mais uma vez, faltou arrojo ao governo para defender uma reforma previdenciária. É fundamental que haja uma reforma mais ousada para colocar um teto mais baixo de remuneração. O Estado deveria incutir valores na população de que é preciso guardar hoje para viver amanhã, principalmente no funcionalismo público.
E o aumento da alíquota do PIS/Cofins?
Isso foi um golpe horroroso na população. Ele se aproveitou de uma boa causa, que era transformar o tributo num imposto sobre valor adicionado, para aumentar a carga tributária. No início do ano, o governo elevou a alíquota de 3% para 7,6%. Esse aumento levou à redução de 7% no número de contratações temporárias no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2003.
Nenhum comentário:
Postar um comentário